Depois de 30 anos de Globo e Record, ele se reinventa

Sabe aquele jornalista que você admirava quando criança ou observava na juventude, durante a faculdade? Herivelto Oliveira é destes. Jornalista que inspirou e continua a inspirar muitos estudantes aqui no Paraná e em outras partes do Brasil. Do alto das bancadas mais importante do jornalismo brasileiro, pelo menos até pouco tempo, ele ancorou os principais jornais da Rede Globo e depois da Record, no Paraná. A vocação para a profissão apareceu cedo.

“Me tornei jornalista por conta dos textos que eu escrevia desde o ensino fundamental, minhas professoras de português sempre diziam que eu devia trabalhar com texto”, lembra Herivelto.

Herivelto Oliveira em uma das primeiras reportagens

Foram 30 anos dedicados ao jornalismo de televisão, 28 na afiliada Globo do Paraná – RPC TV – e os outros dois na RIC TV, a afiliada da Record no estado. Começou como repórter, foi editor e apresentador, sempre muito querido e aguardado pelo telespectador em suas transmissões. Só que, de repente, esse profissional exímio não serviu mais para as empresas. Primeiro por causa de seu custo alto e depois, por causa de seu estilo. Alguma justificativa, as empresas precisam dar!

Herivelto Oliveira, apresentador na RIC TV

Na segunda demissão Herivelto já não foi pego de surpresa. Diferente da Globo, a Record não exigia exclusividade do profissional. Então, o jornalista já estava montando a própria empresa de comunicação quando foi dispensado da RIC TV, dois anos depois da contratação. Assim, seguiu a vida profissional pós-demissão produzindo na própria agência, a Sobre Quase Tudo – comunicação e arte. A empresa oferece treinamentos, assessoria de imprensa, palestras, cerimonial de eventos, entre outras atividades.

“Então, 2015 foi um ano até tranquilo, saí em abril e fiz muitos trabalhos legais pela minha empresa, só que aí veio 2016, um ano péssimo em que muita gente perdeu o emprego, sobrou jornalista no mercado e as empresas pararam de investir”, destaca Herivelto.

Herivelto reportando no exterior

Depois desta guinada na vida profissional e da crise se acirrando, era preciso inovar. E muitas ideias começaram a surgir. De um projeto que tinha para entrevistar todos os candidatos a vereador de Curitiba, nasceu o Herivelto candidato. Sim, o jornalista teve a ideia de entrar para o mundo da política. A principal preocupação foi escolher um partido isento nos escândalos de corrupção e Operação Lava Jato, mesmo que isso lhe custasse a vitória. Na primeira eleição disputada, agora em 2016, teve mais votos do que 15 vereadores eleitos, mas sua legenda não fez os votos necessários. Ele é suplente, mas não conta com a possibilidade de assumir um mandato.

Herivelto Oliveira, com a Sobre Quase Tudo em ação

A menina dos olhos de Herivelto, hoje, é o Brasil de Cor! Um projeto que ele vinha elaborando antes mesmo de sair da Globo, na época para a própria TV, e que ganhou a internet há pouco mais de um mês. Se transformou no projeto pessoal do jornalista e apresenta uma diversidade de assuntos, tendo como fontes, principalmente, o brasileiro de cor. Ou seja, o canal Brasil de Cor foi concebido para dar visibilidade e oportunidade aos negros brasileiros.

“Mais de 50% da população brasileira é negra ou parda, mas você  liga a televisão, você vai ao mercado, vai à igreja, vai ao parque e você não vê (no caso de Curitiba não são 50%, são em torno de 20% da população negra ou parda) e, ainda assim, você não vê. Você não vê as pessoas nesses lugares. Pior ainda, vamos pegar o Jornal Nacional que é um espelho do país, você quase não vê negros. Profissionais negros sendo entrevistados ou mesmo jornalistas, políticos, não tem! Eles ainda são exceção”, pondera Herivelto.

Ao mesmo tempo, Herivelto quer que o canal seja democrático, com conteúdo e assuntos de interesse geral, pra todas as cores. Ele ressalta que não é ativista, continua jornalista no canal, o que facilita a abertura na abordagem de temas. Nas primeiras entrevistas produzidas, há negros ativistas também, mas há negros dentistas, economistas, profissionais de diferentes áreas falando de assuntos comuns a todos. Outra demonstração disso é o primeiro entrevistado do Brasil de Cor, um publicitário branco que fala de uma peça publicitária sobre racismo extremamente rica. Confira:

Os planos de Herivelto são consolidar essa ideia na rede e emplacar o programa em uma TV aberta ou até mesmo em uma televisão a cabo. Ele estabeleceu seis meses para fazer do Brasil de Cor um canal consistente e viável. Hoje, produz tudo a custo zero, graças à parcerias com amigos do meio. De repórter cinematográfico a editor e publicitário, que fez sua marca, todos toparam investir na ideia de Herivelto mirando num resultado futuro. E isso é incrível! É isso que o jornalista precisa aprender a fazer, se unir, se ajudar. Aquela postura individualista, egocêntrica, está dèmodè, ok? O caminho é a colaboração, já falamos muito sobre isso aqui no Reinventa.

“Estou colocando toda minha energia neste canal porque acredito que é uma iniciativa super viável para um canal aberto. Mas antes é preciso derrubar algumas barreiras, mostrar que o Brasil de Cor não é um canal racista, nem sectarista, é um canal amplo, aberto”, reforça o jornalista.

Entrevista com a primeira miss negra de Curitiba, Letícia Campos Costa, para o Brasil de Cor

A audiência tem respondido com vontade. Em pouco mais de um mês o canal está chegando aos 200 inscritos no YouTube e aos 3 mil seguidores na página do Facebook, mesmo o jornalista não aderindo à linguagem mais despojada dos youtubers. Herivelto quer que os expectadores se interessem por algo sério, por isso ele mantém a linguagem das entrevistas parecida com a da televisão. E divide cada conversa em pequenos capítulos, para não ficar muito longa. A entrevista vira uma pequena novelinha.

“O canal é um canal sério, um canal de conteúdo”, ressalta Herivelto.

Herivelto Oliveira, na bancada da RPC TV, afiliada Globo

Sobre o enxugamento das equipes nas redações e a desvalorização do profissional diplomado, experiente, o jornalista lamenta. Para ele, o reflexo aparece no resultado dos produtos, com erros básicos da língua portuguesa, por exemplo. Sem falar na sobrecarga dos profissionais que ficam, que ainda precisam agregar o trabalho dos novos canais de comunicação na sua rotina e no mesmo tempo que sempre tiveram, o que pode levar ao esgotamento.

Quanto ao futuro da profissão, o jornalista é incisivo: “o jornalismo não vai acabar, mas os jornalistas terão de se reinventar”. Pra ele, as demissões continuarão, então o profissional vai ter de criar seu próprio trabalho ou vai voltar a estudar e descobrir uma nova profissão. Provavelmente terá mais de uma atividade. E é assim, muito ativo, cheio de energia e novas ideias, que segue Herivelto. Apostando no Brasil de Cor, mas já pensando e planejando outros caminhos.

 

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ViRachinski

Inconformada com o conformismo...empenhada em evoluir...adora discutir, no melhor sentido da palavra. Filha de Ivo sábio e Diva guerreira, mãe de Francisco, só o nome já explica. Jornalista, montanhista e em busca de novas trilhas!!!

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