Jornalista transforma dor de perder a mãe em projeto de vida

Fernando Lima é paulistano, tem 35 anos e formou-se jornalista em 2005. Iniciou a carreira em assessoria de imprensa e depois de alguns anos de experiência montou a própria agência, a Acta Comunicação, voltada para os segmentos de gastronomia e franquias. Tudo seguia muito bem quando em janeiro de 2014 a mãe dele foi diagnosticada com câncer de ovário, já em estágio avançado! Foi um choque para toda a família. O jornalista se viu tendo de deixar os clientes de lado para cuidar da mãe.

“De um dia para o outro eu deixei de ser jornalista para virar enfermeiro da minha mãe 24 horas por dia. Eu cortei tudo o que eu podia, passei a pagar só o básico e com a ajuda do auxílio-doença (um salário que é dado para a paciente durante o tratamento). Os primeiros meses foram dificílimos”, desabafa Fernando.

Foi preciso viver integralmente para a mãe. Cuidar da hora dos medicamentos, das injeções, das consultas médicas e das idas ao pronto-socorro em momentos de emergência. Além da alimentação, do banho, tudo! Uma rotina dramática que só quem já lutou contra o câncer, de perto, vai compreender totalmente. Em meio a todo esse sofrimento Fernando precisava preocupar-se com a vida profissional, o futuro, o sustento dele.

“Pensei então que eu poderia aproveitar que estava o tempo todo conectado no wi-fi e fazer algo por mim, por ela, e por outras pacientes e familiares na mesma situação”, conta o jornalista.

O jornalista passou a ler muito sobre o tema em sites especializados nacionais e de fora do país, e também textos acadêmicos. Logo veio a vontade de compartilhar esse conhecimento. Três semanas depois do diagnóstico da mãe, o jornalista criou uma página no Facebook chamada Combate ao Câncer de Ovário – CCO.

ACCO Fb

Assim ele também começou a aprender sobre redes sociais, algo que não dominava. Treinou a produção de conteúdo, reuniu as pessoas interessadas, e obteve mais informações sobre a doença. Os estudos não confortaram, mas ajudaram Fernando a lidar melhor com a realidade.

O câncer de ovário em estágio avançado leva a morte, em mais de 60% dos casos, em menos de cinco anos. No caso da mãe do jornalista foi em um ano e dois meses. O conforto dele foi ter se dedicado a ela com todos os recursos e tempo possíveis.

“Tive o privilégio de passar todo esse tempo ao lado dela. Houve períodos de melhoras onde pudemos sair, passear, conviver normalmente, até que então nos últimos dois meses de vida (janeiro e fevereiro de 2015) ela ficou quase todo o tempo internada”, relembra o jornalista.

Depois de um ano intenso de muita divulgação, convites para ações sociais, entrevistas para veículos reconhecidos, com a ajuda do irmão e mais um amigo e com quase nenhum recurso, veio a morte da mãe! Nesta hora toda a força se esvaiu, Fernando parou com tudo, não queria mais falar de câncer. Sabia que precisava retomar a vida e aos poucos foi colocando sua agência Acta novamente para funcionar e a CCO ficou em segundo plano.

Foto 11

Fernando e a equipe da ACCO.

Conseguiu um novo e bom cliente (mais uma vez a rede de relacionamentos ajudou) e sobreviveu ao 2015. Mal sabia que a sementinha plantada durante os cuidados com sua mãe crescia em silêncio. As mensagens de pacientes e familiares continuavam à chegar na página do projeto e convites para ações de combate ao câncer também. Sem saber como sobreviveria da atividade e convencido que já havia atingido o objetivo, Fernando havia decidido encerrar definitivamente as atividades da CCO em dezembro.

Para a surpresa do jornalista, no começo de novembro, um grande laboratório farmacêutico fez contato porque queria apoiar as ações do movimento em 2016. Para tal, precisava que a CCO se tornasse uma ONG, ‘foi uma loucura” lembra Fernando, que providenciou os documentos, contratou um advogado (à perder de vista) e deu vida à  Associação de Combate ao Câncer de Ovário (ACCO).

“O processo todo até obter um CNPJ, abrir conta, etc., demorou uns 4 meses. Foi bem difícil. Porém, conseguimos nos tornar uma ONG”, revela Fernando.

Outro desafio foi entender do novo meio e fazê-lo funcionar com toda a responsabilidade que a iniciativa exige. As primeiras ações da ONG ACCO foram um sucesso e o planejamento para 2017 está a todo vapor. Hoje a ONG é a principal atividade de Fernando.

acco voluntarias

Fernando e voluntárias da ACCO

“Agora eu tenho isso como uma missão de vida. Me caiu a ficha de tudo o que aconteceu na minha vida nos últimos anos e se abriu um horizonte de possibilidades para o futuro. Tenho muito orgulho disso tudo. Minha mãe (2015) e minha avó materna (1987) morreram de câncer de ovário. Consegui transformar uma dor em um projeto de vida muito bonito.”

Hoje a ONG ainda não é o sustento de Fernando e equipe, mas aos poucos estão aprendendo e implementando um modelo que permitirá a sobrevivência de todos, como a venda de souvenirs e a remuneração deles. Claro, que continuam dependendo de patrocinadores, apoiadores, colaboradores em geral. Um dos caminhos escolhidos pela ACCO é obter o selo de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP), para poder pleitear verba pública também. E para isso a dedicação é imensa!

Crowdfunding

CCO camiseta

Fernando Lima – jornalista e fundador da ACCO

Inspirado em um artigo aqui do Reinventa Fernando tentou um financiamento coletivo para a Associação no primeiro semestre, mas não atingiu a meta estabelecida. Agora, depois de estudar melhor a alternativa lança este mês uma nova campanha para bancar a sede da ACCO. Uma sede física vai ajudar a dar mais credibilidade a Associação, aos patrocinadores e associados (que logo virão). Está tudo pronto para a nova campanha de financiamento coletivo e desta vez dará certo, o RJ está na torcida e divulga para ajudar ACCOdeCasaNova.

“O objetivo é arrecadar R$ 20.000,00, verba para o aluguel de um ano, descontados os valores do Catarse e também as recompensas para quem vai apoiar.”

Sobre o momento da profissão:

Fernando pensou até em cursar outra faculdade, trabalhar com gastronomia. Antes mesmo de tudo o que passou já enxergava, claro, o cenário sombrio que o jornalismo vive e estava quebrando a cabeça para descobrir o que fazer. Ele também criou o site de notícias 3minutosnoticias para ser uma alternativa de divulgação de conteúdo dos clientes da assessoria (já que a mídia convencional não dá espaço). Conteúdos de outras assessorias e produção própria completam o canal. Fernando e sua equipe querem dar visibilidade aqueles assuntos que a grande imprensa ignora e ser uma alternativa.

Para Fernando os veículos de comunicação impressos estão com os dias contados, principalmente os jornais diários. “Talvez uma ou outra revista sobreviva. Vai ser difícil. Os anunciantes estão apostando em outros meios, e são eles que mantém (mantinham) o mercado vivo. A tecnologia mudou e está mudando a forma como fazemos as coisas. Hoje em dia consumimos notícias em redes sociais. A TV já divide espaço com programações on demand. Blogueiros chegaram para atuar como formadores de opinião. Particularmente eu acho que conteúdo autoral que inclua vídeo e algum texto pode ser uma boa aposta. Segmentar também pode ser uma oportunidade”, dispara o jornalista. 

Canal da ACCO no Youtube

Para inspirar mais veja a fala da cabeleireira Tatiane Cruz, depois de participar de uma ação da ACCO.

Para saber sobre, divulgar e apoiar as atividades da ACCO basta acessar a página ou entrar em contato pelo e-mail: cco.amoravida@gmail.com. A ONG está aberta a quem quiser colaborar. “Pode ser como voluntário, pode ser utilizando o seu talento. Pode ser ajudando na divulgação, compartilhando o conteúdo” esclarece Fernando.

 

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ViRachinski

Inconformada com o conformismo...empenhada em evoluir...adora discutir, no melhor sentido da palavra. Filha de Ivo sábio e Diva guerreira, mãe de Francisco, só o nome já explica. Jornalista, montanhista e em busca de novas trilhas!!!

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