Jornalista – você tem opção

Até o google sabe. Não está fácil para o jornalismo. Uma busca pelas palavras “demissões jornalistas” no gigante da internet nos dá aproximadamente 1.110.000 resultados. Isto mesmo, mais de um milhão de menções ao tema. Sem necessidade de falar de crise, fechamento de jornais e revistas ou redução de redações, certo? É dispensável também falar sobre o número de jornalistas demitidos e dos novos jornalistas despejados no mercado todos os anos pelas faculdades. Todos conhecemos bem a nossa realidade.

Mas vamos falar do quê? Vamos reclamar? Pois de reclamações as rodas de conversa em coletivas de imprensa estão cheias. Vamos falar de mudanças. Passou da hora de pensarmos em ações e alternativas para nossa profissão. Existem algumas frentes que podemos pesquisar, avaliar e seguir, de acordo com as características de cada profissional. Quando eu me formei, em 2004, o caminho era bem delimitado para quem queria uma carreira de sucesso: você iria trabalhar em impresso, televisão, rádio ou assessoria de imprensa. E ponto. Só que em 11 anos muita coisa mudou no Brasil e no mundo.

Em 2010, 73 milhões de pessoas tinham acesso à internet no Brasil e o investimento em publicidade online no país foi de R$ 1,25 bilhão segundo dados do Interactive Adverstising Bureau, associação que incentiva a propaganda online. No ano da minha formatura este dado nem sequer era calculado no país. Em 2014 o investimento em propaganda na rede chegou a R$ 8,3 bilhões, superando a expectativa de crescer 25% em relação a 2013. E o número de usuários nem aumentou tanto: a última medição do IBGE, de 2013, fala em 87 milhões. Só para compararmos o mercado gastou R$ 67,5 bilhões em publicidade na televisão aberta em 2014 (dados do Ibope Media). Mais do que na internet, mas com crescimento de apenas 12% em relação ao ano anterior. Nos Estados Unidos a propaganda online superou a TV aberta em 2013 e na Inglaterra metade de toda a verba publicitária vai para internet. As empresas e os publicitários já perceberam que a internet é a resposta. Agora, falta os jornalistas.

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Mídias sociais

O Facebook fez outra revolução no que diz respeito a conteúdo e anúncios online. A empresa de Zuckerberg anunciou, em 2015, que atingiu 2 milhões e meio de anunciantes ativos no mundo todo. Boa parte destes anunciantes são pequenas e médias empresas que enxergaram na plataforma uma vitrine a um custo muito mais acessível do que jornais ou televisão. Talvez seja justamente a acessibilidade o grande trunfo das mídias sociais como Facebook, Instagram e Twitter. São plataformas democráticas e ao mesmo tempo lucrativas. Dizem que o Snapchat, fundado em 2011, está avaliado em mais de U$ 15 bilhões.

Apesar de acessíveis, a maioria dos pequenos empresários não sabe como lidar com as plataformas e os recursos oferecidos pelas mídias sociais. É aí que entra o trabalho do jornalista. Mídias sociais não precisam apenas de anúncios. Elas precisam de conteúdo. E não é qualquer coisa, é preciso oferecer conteúdo de qualidade, que um profissional de comunicação pode produzir. Muita gente já se atentou a isso e está ocupando posições de analista ou assessor de mídias sociais. Alguns em agências digitais, outros em assessorias de imprensa e alguns ainda se arriscam por conta própria.

A assessora de imprensa Camila Alessio trabalha na área desde 2010 e hoje está focada na área digital. Fez cursos e estudou muito para entender melhor o mercado de mídias sociais. Para a jornalista, é preciso ter conhecimento em diversas áreas porque o conteúdo exige não apenas texto, mas também captação e tratamento de imagens. “O trabalho em veículos e até mesmo de assessoria de comunicação é bem diferente do desenvolvido por um social media. Afinal, o jornalista especialista em digital é treinado para saber identificar oportunidades, definir métricas e orientar o trabalho de acordo com essas informações.”, explica. Camila acredita que a agência tem mais estrutura para o atendimento.

Ainda assim cabe uma questão aqui: é possível adotar esta função como freelancer, monetizar e conseguir um bom ritmo de trabalho produzindo conteúdo acessível para pequenas ou médias empresas? Para embarcar neste mundo é preciso estudar as estratégias e ainda criar um modelo de negócio efetivo que não sobrecarregue o profissional.

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Jornalismo independente

No campo das notícias e grandes reportagens algumas pessoas tem encontrado saídas para garantir jornalismo de qualidade sem interferências políticas ou publicitárias. O maior problema esbarra na incapacidade de nós, jornalistas, tomarmos as rédeas do projeto enquanto negócio. Administração, fluxo de caixa ou atendimento ao cliente não são, por essência, habilidades que dominamos, porém é sempre possível aprender. As formas de monetizar esses empreendimentos passam pelos tradicionais anúncios, pelos leitores enquanto assinantes, pelo crowdfunding e pelo financiamento por ONGs.

No exterior temos algumas iniciativas assim, como o holandês De correspondent e o norte-americano Beacon. Aqui no Brasil jornalistas também estudam formas de financiar reportagens investigativas. Alguns exemplos são a Agência Pública, o Marco Zero e o Afreaka. Vale lembrar que estes projetos ainda não encontraram um modelo de negócio consolidado, principalmente os de financiamento coletivo ou colaborativo. A plataforma britânica Contributoria, por exemplo, foi lançada em janeiro de 2014 e teve 787 artigos publicados cujos autores ganharam mais de £ 260.000. Com verba inicial do Google e apoio majoritário do grupo responsável pelo jornal The Guardian, a Contributoria foi fechada no início de outubro de 2015, sem um motivo claro para o fechamento.

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Blogs ou sites segmentados

Outro caminho, ainda um braço do jornalismo independente, são os blogs. As principais vantagens são as possibilidades diversas de monetização, que podem ir de anúncios tradicionais à venda de produtos com comissão e à postagem de matérias patrocinadas. Um blog não impõe limite à criatividade do autor, seja ele jornalista ou não. Pode tratar de diversos temas, desde cultura, gastronomia, música ou maquiagem. Monetizar um blog é uma tarefa árdua, mas que já se provou possível por diversos profissionais. Aqui no Brasil podemos citar como exemplos o Papo de Homem, os humorísticos Kibe Loco e Não Salvo e o site Hypeness (aliás, vale a pena conhecer a história dos fundadores Eme Viegas e Jaqueline Barbosa). Hoje, ser blogueiro é uma profissão, que pode ser facilmente agregada ao jornalista.

A paulistana Mariana Fernandez sempre teve blogs para compartilhar viagens e publicar crônicas e poesias. Em março deste ano, logo após o nascimento do terceiro filho, criou o blog Por uma vida de verdade para ajudar a canalizar os pensamentos da maternidade. A jornalista acredita que o blog é uma ferramenta de autoconhecimento que, apesar de não garantir receita, abriu novas oportunidades. “Ainda não posso dizer que tenho um retorno financeiro bom, mas tenho tido um retorno profissional cada vez mais abundante e de diversas maneiras. Seja me redescobrindo em outras atividades profissionais, seja formando parcerias com quem está trilhando caminhos similares, seja com a gratidão de quem se vê no que eu escrevo”, comenta.

Apesar deste exemplo, e mesmo sem dados oficiais sobre o assunto, me arrisco a dizer que a maioria dos blogueiros profissionais não é jornalista. A Débora Alcântara, do blog Tudo Orna, é curitibana e tem formação em relações públicas. O blog de moda é mantido em conjunto com as duas irmãs, uma formada em design e comunicação institucional, e outra, designer de moda. O negócio começou tímido, em 2010, e ganhou repercussão nacional. Débora conta que em seis meses elas já começaram a ver o site com outros olhos, mas foi só dois anos depois que as três passaram a se dedicar com exclusividade ao Tudo Orna. “No início foi bem difícil porque as empresas não viam os blogs como uma forma de comunicação de marca, como uma opção para publicidade. Fomos as primeiras a montar um mídia kit e nos reunimos com outras blogueiras de moda de Curitiba para nos posicionar no mercado.”

Na época, Débora conta que muitos jornalistas viam os blogs como uma ameaça, principalmente profissionais da área de moda e beleza. “A própria revista Capricho (hoje com a versão impressa extinta) demorou muito para incluir blogueiras que já eram web celebridades em suas edições. Quando fez, a edição que tinha várias meninas blogueiras na capa foi um recorde de vendas”. A blogueira e empresária acredita que blogs e veículos tradicionais são apenas formas diferentes de oferecer informação e que um pode complementar o outro.

Débora explica que o blog pode ser uma ferramenta muito útil ao jornalista não apenas como veículo, mas como estratégia de marketing pessoal. “Todo profissional precisa fazer seu marketing, criar sua marca, sua reputação. Eu acho que o jornalista pode trabalhar isso de fora do veículo, autônomo, publicando artigos e reportagens, criando sua marca e conquistando seu público.” Hoje muitas marcas mantêm blogs fora do ambiente do site, onde elas pode se posicionar e ser encontradas, então por que não um jornalista fazer o mesmo? Débora ainda arremata: “Sempre acreditei muito no que o jornalista tem para agregar, no que o publicitário tem e acho que juntos os profissionais da comunicação podem fazer este mercado ir para frente.”

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Marketing digital, infoprodutos e afiliados

Este é um universo a parte na internet que tem crescido cada vez mais no Brasil. Basicamente consiste em vender conteúdo pela internet para uma audiência específica. Não conteúdo de notícia, mas informações práticas sobre um assunto de interesse. Estas informações são formatadas em um infoproduto que pode ser um e-book, um curso online ou até uma consultoria pelo Skype. O infoproduto pode ser criado por você ou pode ser de outra pessoa. No último caso você vende como afiliado, ganhando uma comissão. Há profissionais trabalhando com desenvolvimento pessoal, animais de estimação, aeromodelismo, viagens e até com o próprio mercado de marketing digital. Alguns dos mais conhecidos no meio são Henrique Carvalho, Erico Rocha e Conrado Adolfo. A empresária catarinense, radicada em Curitiba, Camila Porto, que se tornou referência no Brasil com cursos sobre Facebook Marketing para empresas, também se encaixa nesta frente.

Como em todo o mercado, aqui também há os chamados picaretas, que usam as estratégias apenas para ganhar dinheiro e não entregam um conteúdo de valor à audiência. Mas também há os bons profissionais que enxergam no trabalho uma oportunidade de ajudar pessoas e fazer algo com mais propósito. Quase não há jornalistas trabalhando nesta área aqui no Brasil. Compreender este mercado pode ser um pouco difícil no começo porque há muitos discursos de lucro exorbitante em pouco tempo. Para os céticos jornalistas, à primeira vista o negócio tem cheiro de cilada. O teor de palestra motivacional de boa parte dos infoprodutores também não agrada muito. É preciso se livrar dos pré-conceitos e estudar com calma as pessoas e os conteúdos certos. As estratégias usadas no meio são a boa comunicação com a audiência e o conteúdo de qualidade, algo que jornalista tira de letra!

Mudança radical

Depois de anos de carreira, muitos jornalistas estão tão exauridos pelo sistema que acabam perdendo o gás e desistindo de vez da profissão. Não querem nada próximo da área e procuram em outros mercados uma nova carreira. Muitos entram em uma crise existencial acreditando que não sabem fazer outra coisa senão jornalismo. É aí que eles se enganam. Anos de redação podem nos tornar aptos a aprender qualquer nova habilidade, basta querer! Tem jornalista fazendo faculdade de direito, gastronomia e até engenharia. Outros fazem cursos especializados ou abrem empresas.

A jornalista Márcia Moreno trabalhou como repórter freelancer em São Paulo durante 12 anos. Quando o mercado deu uma esfriada, tentou encontrar emprego fixo, sem sucesso. Márcia tinha o sonho de um dia abrir um negócio e como sempre gostou de escrever sobre saúde e de cuidar das pessoas, resolveu virar esteticista. “Na época, eu achava que tinha apenas curso técnico e quando fui pesquisar, me deparei com a graduação. Então já que era para começar tudo de novo, que fosse da melhor forma. Foi aí que entrei de novo para faculdade com 38 anos.” Na faculdade, a jornalista se deparou com disciplinas pesadas como fisiologia, anatomia, histologia, morfologia, microbiologia e química. Nada de “fazer massagem e passar creminho”, como ela brinca. Márcia aceitou o desafio e acabou se apaixonando pela nova profissão. Hoje ela está envolvida em duas pesquisas de iniciação científica, mas ainda faz alguns freelas como jornalista.

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Aliás, a experiência no jornalismo tem sido o destaque da profissional no mercado da estética. “Unir o jornalismo e a estética, me dá um diferencial. A estética precisa se comunicar mais e melhor. E eu consigo juntar estas duas modalidades. É imprescindível explicar para a cliente os motivos pelo qual se escolheu aquele tratamento para ela e neste sentido, a comunicação me ajuda. Assim como na hora de apresentar trabalhos na faculdade ou em Congressos, o jornalismo me deu uma base sólida. Como repórter, eu sei ouvir. E na minha nova profissão, ouvir é primordial. E olha só, já atuo como jornalista na estética, contribuo para veículos de comunicação da área. Acho que este seria um sonho dourado, poder trabalhar com minha duas profissões juntas!!”

Debate

E você? Acredita que é possível seguir algum destes caminhos e reinventar a profissão de jornalista? Conhece outras alternativas além das que citamos aqui? O que você escolheria se estivesse insatisfeito com o jornalismo e buscando novos horizontes? Compartilhe sua opinião com a gente e ajude a fomentar este debate. Você pode usar o espaço do blog para os comentários, comentar no facebook, no grupo Reinventa Jornalista, onde você quiser! E se você já turbinou sua carreira com a internet, conte sobre a sua experiência. Quem sabe você é a inspiração que falta para muita gente colocar aquele antigo projeto em prática!

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About The Author

elainenwzorek

Sou amante de mudanças. Seja pra mudar de país ou pra mudar o lado da cama, estou dentro. Adoro contar histórias e ouvi-las também. Adoro mudar de opinião quando os argumentos me convencem. Amo jornalismo, fotografia, inglês, inspiração, vida e pessoas. Amo Guinness. Amo aprender, sempre!

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Comentários

  1. Haline Sampaio disse:

    Amei!!!
    Vcs sao feras!!!

    1. ViRachinski disse:

      Valeu Haline Sampaio…precisamos avançar com nossas aspirações, em geral escolhemos ser jornalistas com o intuito de tornar o mundo melhor né! Bjs e gratidão por nos dar retorno.