Minha primeira vez ao vivo e porque não posso esquecê-la

Nunca vou esquecer o dia em que entrei ao vivo pela primeira vez. Eu era a terceira repórter de uma afiliada Globo, no interior de Goiás. Não havia ninguém para apresentar o jornal local e eu ainda não havia treinado, nem mandado uma fita para que a capital aprovasse minha participação na bancada (sim, era fita, e tinha que ir pelo malote!). Mas eu ia pro estúdio mesmo assim. Uma emergência.

Wilson Junior

Foto: Wilson Junior

Eu tremia muito. Estava tão nervosa que mal conseguia me concentrar nos textos. E a nota de abertura do jornal tinha mais de um minuto!! Nunca senti tanto medo na minha vida. Eu pensava “você tem que dizer pro seu chefe que não vai rolar, ou vai ser uma catástrofe e você vai ser demitida”.

Eu não disse. Engoli aquele medo horrível, sentei na bancada e assisti à vinheta no monitor de retorno. Logo após as primeiras palavras minha voz quase sumiu, tão grandes eram minha ansiedade e desespero. Não sei como, mas terminei aquela nota e chamei a primeira reportagem. Ouvi uns gritinhos de incentivo do switcher* e segui com o jornal.

Depois teve o primeiro link* externo na rede estadual. E eu só tinha feito vivo pro local uma vez, no dia anterior. Tudo outra vez. Desespero, tremedeira, mãos suadas, voz trêmula. E não tinha teleprompter*. Se eu esquecesse o texto… já era. Aquele dia eu tinha certeza que ia ficar olhando para a câmera, ao vivo, sem dizer uma palavra, até que Goiânia cortasse o sinal por “problemas técnicos”. Sabe quando você tem certeza que vai dar errado?

Não deu. O link foi tão bom, que estenderam de dois para três minutos e eu chamei o intervalo de improviso, no lugar do apresentador.

Depois disso, vieram alguns outros jornais e centenas de links. Sempre dá um friozinho na barriga, mas eu nunca desisti de entrar ao vivo.  O jornalismo tem esse poder de mexer com a gente como a paixão, quando surgem aquelas borboletas no estômago. Só que, ao contrário da paixão, a excitação no jornalismo não vai embora com o tempo. Ela permanece. Por isso todo jornalista é um louco pela profissão. Apaixonado, viciado.

Mas por que estou falando tudo isso agora? Por que resgatar esta experiência de mais de dez anos atrás?

É pra mostrar que nós, jornalistas, somos especialistas em vencer o medo. Só posso falar de televisão, mas tenho certeza que todo assessor lembra da sua primeira conta, todo repórter de impresso, da sua primeira matéria importante e todo jornalista esportivo, da sua primeira transmissão de futebol.

Se a gente bota a cara na frente do entrevistado pra fazer perguntas indesejadas, na frente da câmera para falar de improviso, se a gente faz o que vocês sabem que a gente faz no nosso dia a dia maluco, vocês acham que a gente não vai vencer o medo de encarar essa crise? Sério? Vocês acham que depois de tudo o que a gente passou na profissão, a gente vai deixar o medo de ficar desempregado vencer?

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Não. Nós, jornalistas, vamos fazer como todos os dias. Vamos engolir o medo, disfarçar o nervosismo, se preparar e partir pra cima! Vamos buscar novos caminhos, novas opções, vamos estudar marketing, estudar mídias sociais, estudar internet, fazer o que for para salvar esta carreira que tanto amamos.

É hora de resgatar a paixão e transformar o jornalismo!

Vamos reclamar também, claro, que isso a gente faz melhor do que ninguém! Mas não vamos abaixar a cabeça só porque a realidade mudou. Vamos descobrir a solução, vamos empreender, com muito medo, com muita tremedeira, mas vamos.

Se você está comigo nesta primeira “entrada ao vivo”, comece já! Converse, reflita, leia, pense nos rumos que você pode seguir. E uma boa sugestão para começar a revolução no perfil profissional do jornalista é o curso Realize. O conteúdo do programa é exatamente o que estamos precisando… Um pequeno choque de novas ideias, novas informações e aquela vontade de meter a cara, engolir o medo e fazer! Vem com a gente. Seja um jornalista realizador e coloque suas ideias à frente do medo, como você sempre fez na carreira de jornalista.

*Switcher: sala de controle de onde o editor do jornal conversa com o 
apresentador e coloca no ar as reportagens. 
*Link: entradas externas do repórter ao vivo. 
*Teleprompter: equipamento acoplado à câmera,no estúdio, que apresenta o 
texto a ser lido pelo apresentador.

 

Foto: Aline Fiedler

Foto: Aline Fiedler

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About The Author

elainenwzorek

Sou amante de mudanças. Seja pra mudar de país ou pra mudar o lado da cama, estou dentro. Adoro contar histórias e ouvi-las também. Adoro mudar de opinião quando os argumentos me convencem. Amo jornalismo, fotografia, inglês, inspiração, vida e pessoas. Amo Guinness. Amo aprender, sempre!

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