O jornalismo que muda o mundo em um minuto

(English version below)

E se você, jornalista, pudesse mudar a vida de alguém em um minuto? O que faria?

Vou começar dizendo que comparar o mercado de jornalismo no Brasil com o mercado nos Estados Unidos talvez seja um erro. São realidades bem diferentes, tanto na formação dos profissionais, quanto da grande imprensa. Mas no mundo todo empresas de jornalismo passam por uma crise e os profissionais são os que mais sofrem. O movimento Reinventa Jornalista é global (sim, somos ambiciosas!) por isso buscamos em todos os lugares ideias e inspirações para nossa profissão. Encontramos jornalistas lá fora que tiveram ideias brilhantes, que estão buscando novos caminhos e reinventando a carreira. Talvez as ideias não possam ser replicadas aqui, mas elas podem ser adaptadas, transformadas e inseridas no cenário brasileiro. Ampliar os horizontes sempre traz novos ângulos. Por isso a primeira “gringa” da nossa lista é a Elle Toussi, jornalista freelancer, que se divide entre a Califórnia e Nova York, com algumas temporadas no Oriente Médio!

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Refugiados sírios, entrevistados por Elle                                                            Foto: Elle Toussi

Elle Toussi é uma americana de ascendência iraniana e sempre foi atraída pelas questões do Oriente Médio. Depois de uma rápida passada pelo mundo corporativo, ela resolveu estudar jornalismo. “Eu não iria aguentar viver em um escritório trabalhando no modelo nine to five”, explica Elle, referindo-se à expressão que indica o horário comercial americano e representa um emprego tradicional.

Ela começou cobrindo a indústria cinematográfica, área bem promissora nos Estados Unidos. Entrevistou diretores, produtores, críticos e cobriu importantes estreias. Logo depois trabalhou para o canal de televisão National Geographic. Apesar do sucesso, principalmente cobrindo as novidades de Hollywood, a jornalista não estava feliz. Queria mais. Em 2013 participou de uma conferência na Jordânia e depois viajou para Kosovo. Durante estas viagens, Elle encontrou seu propósito no jornalismo e decidiu que iria voltar ao Oriente Médio. A missão era ajudar mulheres e crianças, contar histórias que não encontravam espaço na grande mídia.

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Crianças refugiadas de guerra na Jordânia                                                             Foto: Elle Toussi

Já de volta à Califórnia, a jornalista começou a trabalhar como freelancer para diversos veículos na região. E foi isso que, inicialmente, me atraiu na história de Elle. O foco da minha entrevista era descobrir como tantos jornalistas freelancers trabalham nos Estados Unidos e refletir se esse modelo seria viável para mais profissionais aqui no Brasil. E como tantas vezes acontece em nosso trabalho, o foco da pauta mudou! A americana dá muitas dicas sobre os freelas, mas a entrevista caminhou para outro ponto: o projeto “In one minute”, em português, “Em um minuto”.

Ainda em 2013 ela começou a planejar a viagem de volta à Jordânia para cobrir a história dos refugiados de guerra que lá vivem. Nesta fase, foi preciso muita dedicação aos freelas para conseguir a verba necessária para a viagem. “Eu nunca queimei pontes, sempre mantive contatos e peguei qualquer trabalho que estivesse disponível, mesmo algo que eu não gostasse muito”, explica. Ela também investiu no marketing pessoal, porque as pessoas precisavam saber o que se passava em sua vida. “Você tem que criar o seu site pessoal. É fundamental. As pessoas precisam saber no que você trabalha, o que está produzindo. Tem que ter um portfolio, mostrar seu material. Eu criei meu site, publiquei o que eu fiz no Oriente Médio e fui ganhando notoriedade como uma jornalista especializada no assunto.”

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Em visita à Jordânia                                                                                            Foto: Arquivo pessoal

Em 2014, Elle passou um mês na Jordânia, cobrindo e coletando histórias que ela descobriu nas ruas. Ao entrevistar uma mulher, ela ouviu: “ninguém se importa com a gente, ninguém quer saber da minha história”. Aquela frase transformaria a carreira da jornalista. “Aquilo me matou por dentro, fiquei pensando: eu fiz alguma coisa para causar um impacto positivo? Poderia mandar dinheiro para organizações, mas quem garante que a ajuda vai chegar para esta mulher? Ao mesmo tempo pensei em tantos amigos meus nos Estados Unidos que se importavam sim com estas histórias, mas que não sabiam como ajudar”, relata Elle, sem esconder a emoção.

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Família síria refugiada na Jordânia, entrevistados por Elle                                Foto: Elle Toussi

Com a cabeça fervilhando de ideias a jornalista achou que a solução passava pela tecnologia e começou a criar o projeto “In one minute”. A ideia é simples: um site e um aplicativo para celular conta as histórias destas mulheres e crianças em vídeos de um minuto. Quem assiste o vídeo e se sensibiliza com a questão pode transferir qualquer quantia em dinheiro diretamente para estas pessoas. “Já fizemos um teste e foi possível fazer uma transferência imediata pela plataforma. Agora faltam mais algumas peças do quebra-cabeça e então podemos lançar o projeto”, conta, orgulhosa. A iniciativa também contempla quem não pode ajudar financeiramente, mas quer enviar uma palavra amiga ou talvez colaborar comprando produtos como fraldas ou remédios. O In one minute ainda não está totalmente pronto, mas deve ser lançado em breve.

Há cerca de um ano Elle começou a estudar tecnologia, fazer contatos com profissionais da área e trabalhar muito para formatar o projeto. “De repente eu me vi cobrindo a editoria de tecnologia, algo que nunca imaginei. Quando você descobre sua paixão genuína, você encontra o caminho. Isso é muito mais do que jornalismo, é o futuro, o futuro está na tecnologia.” A jornalista já planeja uma viagem ao Nepal, para cobrir as dificuldades da população depois do terremoto que matou quase nove mil pessoas em abril deste ano. Ela quer conectar os nepalenses ao In one minute.

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Mãe e filha, refugiadas na Jordânia                                                                          Foto: Elle Toussi

E quanto mais ela trabalha, mais a ambição de mudar o mundo, cresce. “A Jordânia foi a minha inspiração, mas eu quero ir para outros lugares. Tenho histórias da Etiópia também. Quero montar um ‘time dos sonhos’ de jornalistas espalhados pelo mundo todo, contando casos de mulheres e crianças que precisam de ajuda”.

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Khaled, de 2 anos, é um refugiado sírio que vive em uma cidade ao norte da Jordânia, Irbid. Ele e a mãe foram atingidos por um bombardeio quando ainda era bebê, só ele sobreviveu.

Nossa conversa durou mais de uma hora pelo Google Hangouts e foi inspiradora. No início eu queria focar no trabalho de Elle com os freelas, mas a paixão dela por fazer a diferença é tão contagiante, que fica impossível separar a jornalista freelancer da autora do filantrópico In one minute. “Foi graças ao meu trabalho como freelancer, que eu enxerguei esta oportunidade e desenvolvi o projeto. Está tudo ligado.”

Foi aí que eu percebi que o jornalismo é muito maior do que pensamos. Jornalismo é contar histórias, conectar pessoas e assim, ajudar a transformar o mundo. Talvez, nós, jornalistas, não tenhamos mais tanto poder para mudar a realidade com uma reportagem investigativa ou uma denúncia em um grande jornal. Pelo menos, não da forma tradicional que conhecemos. Então vamos inventar outra forma de transformar! Vamos criar, empreender, estudar, aprender, mergulhar em um universo fora da zona de conforto. Talvez muita gente não concorde, mas para mim, o In one minute é sim um projeto jornalístico. É feito de histórias e de conexões. Do desejo de mudar e de ajudar. E se definir é limitar, já dizia Oscar Wilde, então não vamos mais procurar definições. Vamos deixar nossa imaginação livre para criar o que for nossa paixão e fazer jornalismo de verdade, sem amarras e sem limites!

Ainda tivemos tempo de conversar um pouco sobre o trabalho de um jornalista freelancer. Confira as dicas que a Elle deixou!

  • O networking é muito importante. É a sua rede de contatos que vai conseguir seus primeiros trabalhos. Sempre mantenha um bom networking.
  • Preste atenção em tudo. Veja as oportunidades em todas as áreas e editorias, principalmente nas não tradicionais.
  • Se estiver em uma área de conflito, lembre-se de que a sua segurança vem em primeiro lugar.
  • Faça parte de uma organização, grupo ou instituição. Trabalhar como freelancer pode trazer um certo isolamento e isso não é bom. Eu estou co-liderando os eventos da Freelancers Union aqui em Los Angeles e fiz muitos contatos pela entidade, não apenas no jornalismo, mas em diversas áreas. Se na sua região não há nada parecido então crie seu próprio grupo. Você vai se surpreender com a rapidez que ele vai crescer!
  • Descubra qual é sua praia, em que editoria você se sente mais confortável e confiante. Escreva sobre o que você gosta e crie desafios na sua área.
  • Busque outros mercados. Olhe para o Japão, para a Alemanha, para os países vizinhos. Eles podem estar interessados em um conteúdo que vai além, produzido por você. Isso garante material de qualidade sem o alto custo de enviar uma equipe para o exterior.
  • Esteja sempre pronto. Crie suas próprias oportunidades. Eu sempre carrego meu equipamento comigo e se for preciso, meu celular é meu equipamento. Hoje não há desculpas para não produzir.

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English version

What if you could change someone’s life in one minute? How journalism can change the world

I will start by saying that compare the journalism market in Brazil with the journalism market in USA may be a mistake. Those are quite different realities, both in the professional education, as in the mainstream media. But worldwide media companies are facing a crisis and the journalists are the ones who suffer the most. The Journalist Reinvent Yourself is a global movement (yes, we are ambitious!), so we’ve searched all over the world for ideas and inspirations for our career. We’ve found journalists with brilliant ideas, who are seeking for new routes and reinventing their careers. We may not be able to replicate some of this ideias here in Brazil, but sure they could be adapted, changed and inserted in the Brazilian scene. Broading the horizons always brings new angles. So the first foreigner on our list is Elle Toussi, freelance journalist, who works in California and New York, and have traveled to the Middle East.

Toussi is an Iranian-American born and raised in Southern California. She’s been passionate about Middle East matters. After a quick experience with the bussiness world, she decided to study journalism. “I couldn’t live working nine to five in a office”, says Elle.

She began covering the film industry, a promising area in the United States. She’s interviewed directors, producers, critics and has covered important premieres. Then, she worked for the National Geographic Channel. Despite the success, specially covering the news in Hollywood, the journalist was not happy. She wanted more. In 2013 she joined in a conference in Jordan and then traveled to Kosovo. During those trips, Elle found her purpose in journalism and decided she would return to the Middle East. The mission was to help women and children, telling stories that are not being told by the mass media.

Back in California, Elle began to work as a freelancer. And that was what initially drew me in Elle’s history. My focus was to find out how freelance journalists were working in the United States and give some thought to whether this model would be feasible for more journalists in Brazil. But, as so often happens in our jobs, the focus of the agenda had changed! The Amercian journalist gave many tips on freelancer, but the interview moved to another point: the project “In one minute”.

Yet in 2013, she began planning her next trip to Jordan to cover the histories of Syrian refugees who were there. At this stage, she was very dedicated to freelance jobs to get the money she needed for the trip. “I’ve never burned bridges, I’ve always keeped contacts and took whatever work was available, even something I did not like very much,” she explains. She also invested in her personal marketing, because people needed to know what was going on in her life. “You have to create your personal website. It is essencial. People are asking what’s going on, they need to know what you are working on. You have to have a showcase, to show your stuff. I created my website, I published what I did in the Middle East and gained notoriety as a journalist specialized in the subject. “

In 2014, Elle spent a month in Jordan, covering and collecting stories she found. When interviewing a woman, she heard: “nobody cares about us, no one cares about my story.” That sentence would transform her career. “It killed me inside. I was thinking ‘had I done something to make an impact?’ I could send money to organizations, but who can guarantee that the help will come to this woman? At the same time I thought about so many friends in America who cared about these stories, but they did not know how to help, “says Elle, without hiding her emotion.

With her head bursting with ideas, she came to think that the solution had something to do with technology. That’s how the project “In one minute” was born. The idea is simple: a website and a mobile app tells the stories of those women and children in one minute videos. Anyone who watches the video and is sensitive to the matter can transfer any amount of money directly to that person. “We’ve done a test and it was possible to make an immediate transfer using the platform. Now we are putting the pieces of the puzzle together and we can launch the project ” she says, proudly. The initiative also includes those who can not help financially, but can send a friendly word or collaborate perhabs buying products like diapers or medicine.

About one year ago Elle began to study technology, to get in touch with tech professionals and work hard to format the project. “I’ve found myself covering the technology world, something I’ve never thought about before. When you discover your genuine passion, you can find the way. This is more than journalism, it is the future, the future is going to be technological. ” She is now planning a trip to Nepal to cover the struggles of its population after the earthquake that killed almost nine thousand people in April this year. She wants to connect nepalese people to “In one minute”.

The more she works, the bigger gets her ambition to change the world. “Jordan was my inspiration, but I want to go anywhere. I have stories of Ethiopia as well. I want to put together a ‘dream team’ around the world, telling stories of women and children who need help.”

Our conversation lasted more than an hour on Google Hangouts and it was very inspiring. At first I wanted to focus on Elle’s work as a freelancer, but her passion about making the difference is so contagious that is impossible to separate the freelance journalist from the author of the philanthropic In one minute. “It was thanks to my work as a freelancer that I saw this opportunity and developed the project. It’s all connected. “

That’s when I realized that journalism is much more than we think. Journalism is storytelling, connecting people and thus help changing the world. Maybe we are not powerful enough to change reality with an investigative report or a complaint in a major newspaper, not anymore. Or at least not in the traditional way. So let’s invent another way to do it! We can create, engage, study, learn, dive into a universe outside the comfort zone. Many people may not agree, but for me, In one minute is rather a journalistic project. It is made of stories and connections. The desire to change and help. And if define is to give limits, like said Oscar Wilde, we won’t look for definitions. We will let our imagination free to create what is our passion and make real journalism with no strings attached and without limits!

About The Author

elainenwzorek

Sou amante de mudanças. Seja pra mudar de país ou pra mudar o lado da cama, estou dentro. Adoro contar histórias e ouvi-las também. Adoro mudar de opinião quando os argumentos me convencem. Amo jornalismo, fotografia, inglês, inspiração, vida e pessoas. Amo Guinness. Amo aprender, sempre!

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Comentários

  1. Daniela disse:

    Gente, desculpa, mas contar a história de quem começou em Hollywood e foi para o Oriente Médio fazer matéria está beeeeem longe da realidade brasileira, da rotina nas enxutas redações dos portais, das agências de comunicação etc. Se é para se reiventar, temos que ter muita consciência sobre a realidade do nosso mercado, das nossas contas para pagar no final do mês e principalmente da nossa limitação financeira para ir atrás de um sonho. Quantos, hoje, conseguem com o jornalismo (redação ou corporativo), juntar uma grana para largar tudo e começar do zero?

    1. elainenwzorek disse:

      Olá Daniela! Gratidão por participar e expor sua opinião! Se você não se sentiu inspirada pela linda história da Elle, dá uma olhada nos cases da Vanessa Brollo – e da Patrícia Thomaz Com certeza a história delas está bem mais próxima desta realidade a que você refere. E não desanima não tá? Ninguém aqui disse que é fácil empreender, pelo contrário, não é pra qualquer um mesmo! O que a gente quer mostrar é que é possível sim! Um abraço!