Porque sou grata pelo meu passaralho

Sei bem o quanto é difícil mudar a rota da carreira principalmente quando tudo está aparentemente estabelecido, salário na conta todo mês (mesmo que as vezes atrase uns dias) e um emprego para chamar de seu. Nessas horas, em que tudo está “tranquilo e favorável”, temos medo e até preguiça de se arriscar. Mas a questão é que de uma hora para outra a maré pode virar, o emprego bailar e você se desesperar. Está cada vez mais comum com a crise no país e pior, com a crise da velha mídia.

Posso dizer com propriedade. Foi o que aconteceu comigo. Estava tudo estável em minha vida, emprego perto da escola do meu filho, trabalhando em uma televisão… Até já havia passado pela minha cabeça buscar algo novo, criar, empreender, mas o comodismo não deixou. E de uma hora para outra veio o passaralho. Num primeiro momento assustou, mas depois compreendi que já passava da minha hora. Somados outros fatores determinantes, como a fase da vida em que estou e  algumas escolhas que fiz, o passaralho me permitirá deixar uma marca digna neste mundo. Dia desses conto mais para vocês.

Fora isso, tem também os nossos sonhos, esmagadinhos lá no fundo de nossos corações, né? Porque embora mergulhados nas redações, sempre desejamos mais reconhecimento, oportunidade de crescimento, liberdade de expressão pra valer (sem os limites da linha editorial e dos interesses de cada veículo/empresa). Sempre aspiramos exercer a profissão de jornalista como sonhávamos na adolescência, lá atrás, quando escolhemos essa carreira. Servir de canal para comunicar ao mundo assuntos relevantes, de interesse de toda a sociedade, revelar o que os poderes escondem do povo, expor os diferentes lados dos fatos, debater aquilo que realmente importa para o bem estar e avanço da humanidade. Para mim, e tenho certeza que para os que me leem agora, essas foram as genuínas aspirações que determinaram nossa escolha pelo jornalismo.

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Só que, a prática é bem diferente. Primeiro o jornalismo nos seduz, afinal começar em uma redação, se tornar de fato um profissional é maravilhoso, nos enche de vaidade. Num segundo momento, a gente começa a enxergar que não era bem aquilo que pintavam ou que acreditávamos, mas levamos em frente. Afinal, é preciso sobreviver, pagar as contas e não há nada de indigno no que fazemos, somos funcionários de uma empresa, somos pagos para isso (tenho ressalvas). Exercer a profissão já não tem mais aquele gosto doce das primeiras reportagens, mas a gente se conforma. Muitas vezes buscamos argumentos para nos convencer de que, o que fazemos é jornalismo, é útil, está ajudando alguém. Até está, muitas vezes, ora cidadãos que precisam de ajuda, outrora um político que “precisa” se reeleger, um grupo que pretende se manter no poder e por aí vai. Digo o seguinte: é possível bem mais. A responsabilidade, o código de ética da profissão, nos cobra, nos chama a muito mais.

Não se chateie! Sem julgamentos. Já estive nesta posição e, como afirmei, estava bem acomodada nela. No terceiro e derradeiro momento, que pode vir com o passaralho, com aspirações da vida ou naturalmente, você finalmente entende que quer mais do que isso. Quer poder pautar uma reportagem sobre assédio moral, com personagem, fonte do TRT e dados reveladores do Ministério Público do Trabalho sem ser censurado, porque a emissora responde a muitos processos de assédio moral 😮 (isso mesmo!). Quer mostrar os buracos, ah esses eternos buracos, nas ruas dos bairros sempre que eles se abrirem e incomodarem os moradores daquela região, não só quando o dono da emissora está brigado com o prefeito! Quer ver todos os jornais e programas da casa relatarem a agressão covarde de um governo, contra uma determinada classe, sem receber a ordem de que está proibido falar no assunto por ali. Esses são só três exemplos, mas trabalhei em emissora pública também, chapa branca, nem preciso falar de censura ou pauta dirigida, certo?

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Foto: Elaine N. Wzorek

Escandalizado? Não né! Sabemos que em maior ou menor escala funciona exatamente assim na velha mídia. E para piorar o modelo está em colapso, quebrando, falindo, sim, e ainda bem. Finalmente esse padrão de comunicação monopolista, comandado exclusivamente por um grupo seleto de famílias proprietárias, está ruindo. Pudera, em pleno século XXI mantém um discurso elitista e conservador, não contemplando a diversidade cultural, política, social, étnica e de gênero da sociedade brasileira. A antagonista desse oligopólio é a internet que deu voz ao povo e vem ajudando a democratizar a comunicação. Hoje, qualquer pessoa produz e publica informações, denúncias e pasmem, muitas vezes arrebenta na audiência, provoca mudanças de postura, faz empresas voltarem atrás em decisões arbitrárias, mobiliza.

Claro que tem o lado ruim também, mas é aí que entra o trabalho do jornalista, com seus veículos de comunicação independentes, com seus blogs e portais que não estão submetidos ao pensamento único da velha mídia. Precisamos nos “apossar” dessa tarefa intrínseca. Muitos já estão trabalhando nessa linha, descobriram que podem produzir direto para o leitor, ter apoio de fundações, podem empreender e viabilizar o sustento sem uma carteira assinada. Ainda assim existe muito espaço nesse novo mercado a ser explorado, muitos nichos, muito leitor para ser atendido. Por que estou falando tudo isso? Para dar em você o chacoalhão que ninguém me deu, dizer que você não precisa esperar o passaralho ou a crise existencial chegar, porque ela vai chegar, cedo ou tarde.

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Se abrir seus olhos antes será bem mais fácil. É diferente de ser obrigado a correr com seus projetos porque você precisa sobreviver. Eu tive algumas outras oportunidades, bem interessantes para o meio convencional, muitos amigos queridos e colegas de profissão me chamaram, me indicaram para vagas de trabalho. Sou eternamente grata a eles (eles sabem), mas aí já tinha sido picada pelo mosquito da liberdade, que além do jornalismo está me permitindo conhecer e empreender em outras áreas.

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Foto: arquivo pessoal

Uma das frentes as quais decidi me dedicar é o jornalismo independente, cada vez mais forte na internet. Só que, como jornalista de televisão, foi preciso desbravar o mundo digital e me bati bastante neste processo. Ainda estou aprendendo e sempre estarei. É um meio muito dinâmico. Foi bem difícil porque não havia nada ainda direcionado à jornalistas. Foi uma saga, fiz curso de mídias sociais, pesquisei, li muito, aprendi com especialistas em marketing digital, debatia com minha parceira de projeto, mas sempre faltou o entendimento do mundo jornalístico no que havia disponível, sabe? E essa é uma de nossas missões no Reinventa, ajudar mais jornalistas a conhecer melhor esse mundo e suas possibilidades.

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About The Author

ViRachinski

Inconformada com o conformismo...empenhada em evoluir...adora discutir, no melhor sentido da palavra. Filha de Ivo sábio e Diva guerreira, mãe de Francisco, só o nome já explica. Jornalista, montanhista e em busca de novas trilhas!!!

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Comentários

  1. Ariane disse:

    Oi Viviane. Adorei seu depoimento. Me identifiquei muito. Também me especializei em reportagem de TV e agora vejo um novo caminho pela internet, basicamente por dois motivos: autonomia no trabalho e falta de oportunidades. A gente se sente um peixe fora d’água quando se dedica tanto em uma área e depois precisa girar a roda para não parar no tempo. Amei também as dicas da Verônica e se já tinha uma ideia em mente, vocês me ajudaram a colocar em prática o mais rápido possível. Parabéns pelo projeto! Beijos!!

    1. ViRachinski disse:

      Que maravilha Ariane! Gratidão pelo retorno viu, porque isso é que nos anima a seguir, conseguir de alguma forma ajudar colegas jornalistas. Isso mesmo não espere o dia, a hora, o estágio perfeito, o melhor momento é já, dar o primeiro passo é fundamental. Depois vai aprimoramdo, mudando, afinando. Muita determinação e conte com a gente 😉

  2. Carlos Eduard Rzezak Ulup disse:

    Vira, seu nome é esquisito, que nem o meu (Rzezak). Você fala um bocado, no mais das vezes acho que vai na mosca. Só tenho dúvidas sobre a tal “democracia” na internet, para dizer o mínimo. Estou de olho. Vai fundo.

    1. ViRachinski disse:

      Hahaha, qual a origem de seu sobrenome Carlos? O meu, apesar de ser polonês gosto de contar que sou mais índia e negra do que polaca! Falo pra caramba mesmo e concordo contigo nesse ponto, as mídias digitais estão nos abrindo muitas possibilidades, porém, claro, temos de considerar que são empresas, visam lucro, tem seus interesses. No entanto, precisam de nós usuários pra tudo isso também, somos o remédio, mas também o veneno deles. Então, penso que devemos aproveitar e esmiuçar nossas possibilidades e seguir “de olho” como você diz. Para poder exigir e brigar por avanços, sempre que necessário. Os veículos de jornalismo independente que já existem no Brasil, alguns já consolidados, são um exemplo de que pelo menos um pouco já avançamos. Antes da internet isso não era possível. E tratar do que estamos tratando aqui também é outro avanço, pois se dependesse da mídia convencional… Enfim, gratidão por sua relevante observação, e siga com a gente.

  3. Parabéns pela matéria e sucesso . realmente , ainda mais neste país, ser profissional e desenvolver sonhos e empreendimentos e coisa pra herói de cinema.

    1. ViRachinski disse:

      Gratidão Marcio! É muito trabalhoso mesmo, mas é possível. Temos vários exemplos aqui mesmo no Brasil, temos de persistir, fazer boas parcerias, colaborar. As vezes precisamos mudar a rota, ajustar, começar de novo, mas é possível realizar. Eu acredito, muito e sempre, meu amigo. Grande beijo pra ti.

  4. Quanta inspiração Viviane. Obrigada por compartilhar sua história e mostrar que sim, é possível. Nós jornalistas precisamos ter coragem de empreender.

    Beijos e sucesso, sempre

    1. ViRachinski disse:

      Que satisfação Vanessa 😍! É necessário né… A humanidade precisa dos jornalistas e estamos num momento derradeiro, de transformação, temos de nos movimentar. Gratidão pelo retorno e incentivo. Vamos juntos!!! Bjos

  5. Daniela disse:

    Excelente texto! Muito atual para o momento em que vivemos, sucesso na empreitada.

    1. ViRachinski disse:

      Ebaaa, que bom que você gostou Daniela! Gratidão pelo retorno e sigamos em nossas empreitadas.